“Uma dor, um sonho, uma ideia são coisas muito abstratas que muitas vezes a palavra não compreende”, diz psicóloga Monique Farber

Foto: Helen Santana

Em meio aos livros, Fernando Gil busca maneiras de aplicar arteterapia da melhor forma para ajudar as pessoas

A arte é expressa de várias formas. É tudo que é vivo. Tudo que é matéria e energia. Assim como no jornalismo, a arte se divide em diversos campos e um deles é a arteterapia. Pela etimologia da palavra, arteterapia é a junção de arte e terapia, ou seja, é usar a arte para realizar tratamentos psicológicos, psiquiátricos e de autoconhecimento.

O artista especializado em arterapia, Fernando Gil, buscou a técnica por necessidade própria. Ele teve depressão há 20 anos e buscou ajuda psiquiátrica. Sempre questionador, Fernando não aceitou que teria que tomar remédios controlados a vida toda. “Eu perguntei à psiquiatra como o remédio ia curar minha depressão, mas deixei claro que não iria tomar para sempre, então comecei a pesquisar e encontrei a arte, hoje sou curado”, enfatiza ele.

Anos depois, o filho de Fernando, com apenas seis meses de idade, desenvolveu Síndrome de West – uma forma de epilepsia que se inicia na infância –, esse foi um momento decisivo: ele pôs em prática a terapia que havia pesquisado anteriormente. “Fiz uma terapia objetiva (são as coisas concretas). Pegava na mão dele e ia tocando nos objetos. Por exemplo, andava com ele pelo hospital e dizia ‘toca no vidro’. Passava um tempo, ele começava a dar risada e nós voltávamos para o quarto”, revela ele. Por meio desse tratamento, o filho de Fernando se curou em três dias.

Atualmente, o artista trabalha, em grande maioria, com crianças. Como técnica para avançar a terapia, ele faz uso dos desenhos. Durante as consultas, Fernando solicita que a criança faça um desenho dos pais. “É muito representativo e isso permite fazer análises do perfil da pessoa, o que ela quer dizer com aqueles desenhos”, afirma Fernando.

A psicóloga Monique Farber explica que o ser humano aprende a interagir com o mundo desde a infância. “A expressão por meio do desenho é o jeito que a criança se mostra no mundo, desejo, rotina é uma forma de expressão, ela sempre vai desenhar e brincar porque é a linguagem dela”.

Fernando Gil trabalha com a desconstrução das coisas, realiza um trabalho abstrato e subjetivo. “Eu gosto muito da abstração, estamos habituados nesse universo material de que tudo tem que ter um significado, mas às
vezes olhando para um quadro desconstruído, uma pessoa pode obter a cura”, conta ele.

Monique explica que a arte ajuda a expressar sentimentos que não podem ser ditos apenas com palavras. “Uma dor, um sonho, uma ideia são coisas muito abstratas, que muitas vezes a palavra não compreende. Então a arteterapia, a arte de maneira geral, também fala”, expõe a psicóloga.

“O mosaico é um paraíso”, diz mosaicista
Há várias maneiras de trabalhar com a arteterapia. De propriedades inerentes específicas, basta o arteterapeuta criar um repertório para aplicar o método, seja pelo desenho, mosaicos, escrita criativa, colagem, pintura, musicoterapia e dança.

Edeniuza Vargas da Costa é mosaicista e em 2007 desenvolveu uma oficina com os alunos com síndrome de down da Apae (Associação de Pais e Amigos Excepcionais) de Cascavel. “O mosaico é muito mais que uma terapia. É um paraíso, ele tira você dá realidade, faz relaxar de tal forma que não tem tempo de pensar em nada de bom e ruim. Têm pessoas que falam que não tem paciência, mas quando começam a fazer essa arte percebem que mosaico é um vício”, enfatiza ela.

A artista relata que quando os alunos da Apae visitaram o ateliê dela pela primeira vez ela escondeu todos os objetos cortantes e deixou apenas tintas. “Eu guardei todo o material por medo deles se machucarem. A professora viu um quadro meu feito de cacos de azulejos quebrados e pediu se eles podiam fazer. Quando comecei a mostrar os materiais, os olhos deles brilhavam”, relata Edeniuza.

Foto: Milena Lemes

A mosaicista demonstra como é o corte dos materiais

A artista trabalha atualmente com quatro alunos que têm a síndrome: Kelvin, Luiza, Cris e Márcio Leopoldo Rodrigues da Costa, sobrinho dela, o Marcinho. “Ele é meu ajudante, me auxilia em todos os meus mosaicos”, destaca ela.

Marcinho tem uma relação mais do que especial com o primeiro mosaico solo finalizado por ele. “Terminei o mosaico no ano passado, demorei oito meses para fazer e dei o nome de Joaquina, em homenagem a minha falecida avó, porque ela sempre dava palpite no que eu estava fazendo”, relata.

A área de serviço de Edeniuza se tornou o ateliê da artista. Ao entrar no local somos inseridos em um mundo de ferramentas, peças raras e também de peças comuns usadas nos mosaicos. Desde mármores importados até sucata, da porcelana até vidros reaproveitados.

Talvez você pense que fazer mosaico é simples, mas a artista garante que não é tão fácil quanto parece. “Eu já demorei 16 horas para fazer apenas um
mosaico”, revela ela. Os passos são muitos e variam de acordo com as técnicas diretas e indiretas. “Uma peça direta é a feita já na tela ou no quadro em que o trabalho vai ficar. Já a peça indireta é quando o mosaico vai ser movido para uma parede, então ele deve ser feito primeiro em uma tela de fibra de vidro”, explica a artista.

Ano passado, o ateliê de Edeniuza participou do 2º Encontro de Ateliês e
Espaços de Arte de Cascavel, no Museu de Arte de Cascavel (MAC). Kelvin Luiz Martignoni expôs pela primeira vez. “Eu gostei muito de mostrar minha obra, foi um momento importante para mim, estou fazendo outro mosaico e pretendo expor de novo. Quando faço mosaicos me sinto tranquilo”, afirma ele.

Criatividade não tem idade: arteterapia ajuda aliviar as tensões
A aposentada Evelyn Haase de 63 anos faz mosaicos desde 2006. Ela
participou de uma oficina em um ateliê da cidade e teve a oportunidade de expor sua obra, “A Gata Meg” no 2º Encontro de Ateliês e Espaços de Arte de Cascavel. “A experiência foi maravilhosa, eu já fiz vários mosaicos, utilitários e decorativos e concluí mais de 15 mosaicos”, destaca ela. A admiração pela arte do mosaico sempre foi algo que chamou atenção de Evelyn, ela conta como a prática vem ajudando para o seu desenvolvimento. “Além de ajudar a desenvolver o processo criativo me ajudou a aliviar as tensões do dia a dia. O mosaico representa pra mim um hobby, uma terapia e ao mesmo tempo um trabalho gratificante”, ressalta ela.

“Quando realizamos a arteterapia, existe uma sensação de aconchego. Hormônios como serotonina e do bem-estar são ativados, ajudando no controle do estresse”, explica a psicóloga, Monique Farber. A mosaicista
Edineuza Costa enfatiza que a arte é subjetiva. “A linguagem da arte é
pessoal, ela transmite várias coisas e te lembra algo. Eu acredito que a
essência da arteterapia é isso: fazer as coisas como você quer, no seu tempo e com amor”, destaca a artista.

Foto: Milena Lemes

Kelvin, Edeniuza e Marcinho mostram os trabalhos expostos no 2º Encontro de Ateliês e Espaços de Artes de Cascavel

A técnica do mosaico existe há mais de sete mil anos
É uma arte que consiste em pequenas peças recortadas que coladas próximas umas das outras conseguem produzir um desenho ou imagem. A técnica surgiu há mais de sete mil anos e tem origem na palavra “mosaicon”, que significa “musa”. Nos dias de hoje, ela é usada de diversas maneiras – não é raro vê-la aplicada em quadros, paredes e móveis, nesse último caso dando um toque personalizado à peça. Para você que se pergunta quanto tempo dura um quadro de mosaico, a resposta vem de Edeniuza: “o cuidado com o mosaico é muito sério. É um trabalho feito para durar pelo menos 10 anos, sem manutenção. É preciso cuidar e conservar. Se não cuidar, buracos começam a aparecer e depois do primeiro, vários outros se abrem”, revela ela.

Por: Helen Santana e Milena Lemes