Cada cascavelense guardava em casa cerca de 125 quilos de lixo propício para criadouro de vetores e animais peçonhentos

De acumulador e louco, todos temos um pouco. Será?
Basta olhar para o seu guarda-roupa. Quantas peças têm lá que você não usa há anos, mas que, quem sabe um dia, cogita usar? Na geladeira aquela embalagem com um restinho de qualquer coisa que já está vencida. No armário aqueles potes, sem tampa, que quem sabe pinta algo para colocar dentro…
O trocadilho em uma frase de efeito nunca fez tanto sentido em Cascavel como neste ano. Acumular adoece. E quem diz isso? Quem cuida da saúde. E olha que nem precisa ser profissional graduado na área. É sabido que a sujeira é nociva, que acumular faz mal para o corpo e para a mente, mas o município viveu neste ano uma condição diferente: o acúmulo de lixo trouxe à cidade uma triste marca epidêmica.

Há anos Cascavel não registrava tantos, mas tantos casos de dengue. Sim, aquela doença transmitida por um mosquito minúsculo e que pode ser devastadora, como de fato foi. No ciclo epidemiológico encerrado no dia 31 de julho de 2019, iniciado no dia 1º de agosto do ano passado, foram 3.419 notificações suspeitas, cerca de uma para cada 10 habitantes. Do total, 1.587 se confirmaram. Pasme, o número foi 56 vezes maior que o registrado no ciclo anterior.

Isso porque nem chegamos às mortes ainda. O Aedes aegypti matou 3 cascavelenses nesse um ano. Os dados são da Divisão de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Saúde de Cascavel, ratificados pela Sesa (Secretaria de Estado da Saúde).

E olha o que diz a diretora do Departamento de Vigilância em Saúde, Beatriz Tambosi. “Mesmo com o clima frio [assim que o inverno chegou] se pôde descuidar. Os cuidados básicos para eliminação dos focos do mosquito transmissor da dengue precisam ser redobrados, pois o município continua registrando casos e o apoio da população no combate ao vetor transmissor é fundamental para evitar a doença”.

E o que o lixo tem a ver com isso?
Você deve estar se perguntando, o que o acúmulo tem a ver com isso? Tudo, ou boa parte. Os cascavelenses estavam acumulando muito lixo em casa. Não era em pequenas quantidades, foram milhares de quilos. Corrigindo, milhares de toneladas. Ao certo, pouco mais de 40 mil toneladas e 17 mil pneus, o lar mais aconchegante para os transmissores da dengue, estava no lar das pessoas que adoeciam sem saber o porquê. Para se ter ideia, é como se uma em cada duas residências guardasse no fundo do quintal um pneu velho e sem uso. As 40 mil toneladas, representam algo próximo a 125 quilos de lixo guardado em casa por habitante. Muita coisa, não acha?

Mas como chegou a esse ponto?
Ao certo ninguém sabe, o que se tem certeza é que só a partir de um gigantesco mutirão determinado pelo prefeito Leonaldo Paranhos este cenário começou a mudar. O mutirão iniciou lá em abril quando a primeira morte por dengue foi confirmada. Com a previsão de durar apenas 3 dias, o recolhimento precisou se estender por 3 meses. Era tanta coisa que surpreendeu a todos.

O que coincidiu foi que, só a partir disso, os casos pararam de explodir. Até o início do mutirão foram registrados cerca de 80% dos diagnósticos por dengue em Cascavel, levando o município à preocupante lista do Ministério da Saúde de epidemia à doença.

Na prática…
O mutirão mostrou como os cascavelenses passaram a adoecer pelo que acumulavam em casa. Foram tantas coletas, mas tantas coletas, que foram necessárias milhares de viagens dos caminhões do Município. Os depósitos ficaram hiperlotados. E quando se pensava que elas estavam próximas do fim, eis que surgiam outros milhares de quilos na porta das residências e o recolhimento precisava ser prorrogado.

A iniciativa da Prefeitura de Cascavel, e que foi mencionada como algo extremamente positivo para eliminar o vetor, teve reconhecimento nacional. Não era para menos. Ninguém sabia ao certo de onde tanto lixo brotava. Coube ao Gestor do Território Cidadão, João Carlos da Costa, o Cocão, a árdua missão de comandar as equipes e os trabalhos que se iniciavam muito cedo e só terminavam altas horas da noite.

A verdade é que esta lixarada toda deu espaço a criadouros sem fim. Aquele famoso e imprescindível cuidado que todos devem ter em não manter água parada, eliminar os criadouros potenciais.

A diretora do Departamento de Vigilância em Saúde, Beatriz Tambosi reconheceu: foi o mutirão que conseguiu segurar o avanço da doença por aqui. Mas agora é preciso manter. O calor está chegando, mais uma vez.

Fazer esta mobilização toda em Cascavel revelou que a população precisa, mais do que nunca, fazer sua parte todos os dias. “Quando o prefeito Paranhos determinou o mutirão, a gente não esperava nem imaginava esta quantidade de lixo, isso nos surpreendeu. E além de todos os problemas, registramos cerca de 50 pontos onde o controle de endemias teve dificuldades para acessar os terrenos, precisando de uma entrada estratégica e de lá se tirou muito lixo também”, lembrou Cocão.

O mutirão em Cascavel chegou ao fim e a regra é: não acumule. Com uma cobertura excepcional da coleta seletiva pela cidade, aquilo que pode ser destinado à coleta de resíduos deve seguir para ela. O que ainda pode ser usado por outra pessoa, a dica é: reutilize, faça uma doação. O que a coleta seletiva não leva, como móveis velhos, pneus ou coisas assim, basta ligar para os telefones (45) 3902-1383 ou 3902-1392 para agendar um horário que a retirada é feita sem custo na sua casa. Lembre-se que a conta pode ser cara com a falta de limpeza. O preço pode ser a sua vida ou a de quem está próximo.

O novo ciclo já começou, e os casos podem voltar e sabe por quê? Porque as larvas do mosquito sobrevivem no inverno e eclodem no verão. A reaproximação das estações quentes podem trazê-los em potencial de volta e você não quer este indesejável visitante em casa para passar as férias de verão, não é?