Turno 24/7 pode causar sérios efeitos colaterais, como alterações dos hormônios, do humor, da atividade cerebral, da temperatura corporal e do desempenho dos trabalhadores noturnos

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São 3:30 da manhã e ele ainda não conseguiu dormir. Vira para cá, vira para lá e nada. O olho já lacrimeja de tanto sono. O corpo pede um descanso. Mas ele não pode, pelo menos não agora. Não no seu turno de serviço. Trabalha na empresa há pouco mais de seis meses e cumpre um turno em sistema de escalas de seis horas diárias, seis dias por semana, com uma folga durante sete dias. Assim foi a vida de Adélio Santos (nome fictício), técnico de uma grande empresa de televisão, enquanto trabalhou por mais de um mês (quase dois meses na verdade) de maneira praticamente ininterrupta na madrugada.

A adaptação com o horário para ele, que já trabalhou em outra empresa com regime de escala noturna de 12/36 não foi difícil, mas a rotina incessante de trabalho pela responsabilidade exigida pelo cargo, acabou tornando a função repetitiva, cansativa e extremamente desgastante. “A pior coisa é que você passa sono. Noites mal dormidas, dias mal dormidos”, revela Adélio. O trabalho frenético o mantém acordado enquanto necessário, ao custo de deixá-lo indisposto a quase tudo fora do círculo de trabalho: Faculdade? Nada, quero dormir. Sair com os amigos? Não hoje, preciso dormir. Conversar com a esposa? Não também, o sono é mais importante!

Mas sabe, o homem é um ser político por natureza e tem no convívio diário das relações sociais a revelação de que o expediente de trabalho em regime de “plantão” não se limita a afetar apenas ao trabalhador. “Eu fico o dia todo fora e ele está lá em casa dormindo, então quando eu chego em casa ele não está mais lá”, relata a esposa de Adélio, Sônia Maria (também nome fictício). E não é “só” isso. Sabe quando você fica de mal humor porque alguém te acordou antes do que você queria? Ou quando você fica bravo com um vizinho baderneiro que não te deixa dormir? Então, imagine como fica o emocional de quem troca o dia pela noite por causa do serviço.

“O humor muda totalmente. Eu já não sou um dos mais pacientes, mas você fica bem mais estressado”, confessa o segurança Leonardo Almeida (nome fictício). Leonardo nunca havia tido contato com o período noturno, apesar de já ter alguma experiência na área da segurança, no entanto sentencia: “Não tem nenhuma vantagem em trabalhar de madrugada. Só se precisar mesmo”.

É a mesma perspectiva da Médica Dra. Carolina Ferraz, que se nega a fazer plantão e fazer jus ao adicional noturno de 20%. “As pessoas vendem a sua saúde sem nem perceber”, reitera a médica otorrinolaringologista especialista na medicina do sono. Não que seja ruim ter o adicional, mas pondo na ponta do lápis, mais vale uma noite bem dormida e um dia bem-disposto do que um dinheiro sobrando no banco com a saúde deteriorada.

Segundo estudo da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, estima-se que entre 7% a 15% do empenho da força de trabalho nos países industrializados está envolvida de alguma forma com trabalhos noturnos. Há pesquisas que afirmam que pelo menos um quarto desses trabalhadores sofrem com distúrbios do sono. Mas na prática, isso é um pouco diferente: “É mais prevalente, às vezes as pessoas não associam o ronco e a apneia com o fato de serem trabalhadores noturnos. Nós ainda não temos um levantamento adequado, desde deficiência de vitamina D, obesidade e tudo o mais”, revela a Dra. Carolina.
Mas sabe-se que o funcionamento 24 horas por dia, sete dias por semana é uma tendência mundial. É uma realidade sem volta, como a polêmica globalização. No entanto, há meios para atenuar o impacto dessa rotina cômoda para tantos e avessa a outros. “Uma escala progressiva em que as pessoas trabalhassem a cada dois/três dias, duas ou três horas mais a frente, fazendo o que chamamos de avanço de fase seria o ideal”, explica a doutora.

Atualmente já se sabe que o esquema 12/36 é um dos mais maléficos por não dar nenhuma continuidade ao sistema ciclo circadiano (do senso de 24 horas) e ser completamente abrupto com o cidadão. Por conta disso o avanço de fase, isto é, trabalhar mudando de horário de maneira gradativa, seria o mais adequado. “Ao invés de você ficar trabalhando 12 horas, até às 7 da manhã, na primeira escala você pegaria dois dias que vai até a uma, depois dois dias que vai até as três, dois dias que você vai até as cinco e você vai ciclando, pouco a pouco”, sentencia a médica Carolina Ferraz.