O que vem por aí, a nível de tecnologias e saúde

O homem é por natureza um ser gregário. Diferente da maioria dos animais, o ser humano necessita de cuidados, afeto e socialização para que possa desenvolver-se de forma saudável nos aspectos físico, intelectual, emocional e social.

Essa necessidade natural de convívio contribuiu para que historicamente nos organizássemos em sociedade e evoluíssemos para chegar onde estamos hoje. No ambiente organizacional, essa mesma característica também impacta significativamente. Desde que se têm registros das primeiras organizações produtivas, identifica-se a presença de indivíduos que reunidos em grupo, desenvolvem atividades com objetivo de geração de renda e realização de um propósito alinhado.

No entanto, essa natureza por si só não reduz a complexidade das relações entre os indivíduos que além do conhecimento, das habilidades e competências, trazem consigo também um sistema de crenças e valores, baseados nas experiências e memórias integradas, que orientam o comportamento dos integrantes, em todos os ambientes.

Isso explica porque duas pessoas quando expostas a um mesmo estímulo ou condição, podem reagir de formas tão diferentes. Cada ser humano reúne um conjunto de sistemas integrados, complexos e em contínuo processo de desenvolvimento. A medida que a pessoa tem espaço para olhar para si e para os outros, e compreende que diferenças e semelhanças são importantes e necessárias para o processo de crescimento individual e coletivo, passam a posicionar-se de forma produtiva diante das situações e obtém resultados melhores em termos de metas e satisfação.

Analisar esses fatores em um cenário como o atual, onde a mudança é
constante, é relevante para compreender que, a capacidade de reagir e se
adaptar a novos contextos, das pessoas que compõe estas organizações,
é um dos principais motivos pelos quais, algumas organizações
desaparecem num piscar de olhos enquanto outras tem sucesso e
permanecem no mercado ao longo de gerações.

Ainda no contexto histórico, podemos observar que ocorreram várias mudanças com impactos nas organizações produtivas, nas relações de trabalho e de consumo. No entanto, nada se compara a que estamos vivendo nos últimos 50 anos, gerada pelos avanços da tecnologia, especialmente a partir da implantação de sistemas cyber-físicos, da aplicação da internet das coisas e da descentralização da manufatura que tem alterado significativamente, a forma como vivemos e nos relacionamos, em todas as áreas de nossas vidas, inclusive na forma como cuidamos de nossa saúde.

Então, qual será o caminho para que profissionais e empresas da área da saúde possam permanecer neste mercado vuca (volátil, incerto, complexo e ambíguo)?

Recentemente a imprensa divulgou as previsões tecnológicas e científicas realizadas por uma das mais famosas empresas globais de tecnologia, a qual indica que nos próximos cinco anos teremos acesso a produtos, serviços e tecnologias sem precedentes. Nos exemplos a seguir, adaptei as aplicações dos recursos tecnológicos, indicados nas pesquisas publicadas nos últimos dois anos, ao setor da saúde.

Imagine por exemplo que logo mais será possível acessar informações
qualitativas e quantitativas sobre as bactérias presentes em alimentos no ato da compra, utilizando simplesmente um aparelho celular. Analisando a informação os consumidores poderão optar por comprar ou não os produtos, escolher permanecer ou não como cliente e ou ainda, indicar ou não esta empresa para seus amigos e familiares. Ações preventivas reduzirão por consequência a necessidade de tratamentos médicos.

Ou que tal o profissional da saúde, poder informar ao paciente, com segurança e confiabilidade, a procedência do medicamento que está recomendando ou aplicando na clínica ou hospital? Isso é possível através de plataformas blockchain que permitem rastrear o caminho que o produto percorreu ao longo de toda cadeia produtiva. Essa tecnologia contribuirá também para estabelecer uma concorrência mais saudável entre empresas, e mais segura para o consumidor, que poderá optar, com base em informações mais seguras do que a indicação, pelo profissional ou empresa que atender aos critérios mais alinhados aos seus (do consumidor).

E que tal fazer um exame de DNA a baixo custo sem precisar sair de casa? Já faz algum tempo que laboratórios autorizados comercializam um kit para o exame pela internet e o próprio cliente realiza a coleta da sua saliva, envia para a empresa e em poucos dias recebe o resultado, com segurança, sigilo, confiabilidade e por um valor acessível.

Algumas destas previsões já são factíveis e tem sido cada vez mais demandadas pelos pacientes das novas gerações.

Prova disso é o crescente o número de empresas brasileiras da área de saúde que investem em tecnologia não somente no tratamento, mas também para proporcionar maior segurança e satisfação aos seus clientes-pacientes durante o atendimento ou realização de algum procedimento. Entre os exemplos cito empresas que utilizam a realidade virtual para desviar a atenção do paciente por meio de vídeos com personagens animados interativos, com objetivo de reduzir o sofrimento dos pacientes, na aplicação de vacinas, na realização de exames ou ainda como estímulo, no caso de pacientes que passam por tratamento de fisioterapia.

Com tanta tecnologia até parece que em breve, robôs, computadores e outros equipamentos substituirão os profissionais da saúde, não?

Considero que as empresas que permanecerão no mercado e terão sucesso no futuro não serão as que oferecerão os equipamentos mais modernos ou a tecnologia mais avançada para seus clientes, mas aquelas que forem capazes de combinar tecnologia e, seres humanos com propósitos alinhados, genuinamente conscientes, preparados e dispostos a proporcionar aos clientes-pacientes, experiências extraordinárias de vida.

Esse é sem dúvida, o maior desafio dos líderes que desejam construir e manter organizações e equipes de sucesso, saudáveis e perenes.

Até o momento, nenhuma tecnologia é capaz de substituir verdadeiramente a condição humana de estabelecer e manter relações legítimas.

Nara Pick é empresária e atua como consultora de gestão de negócios.
Possui experiência de mais de 15 anos nos setores de comércio, serviços e
agronegócio. Nos últimos cinco anos, atuou como coordenadora
regional em programas nacionais no SEBRAE como o ALI – Agentes Locais de
Inovação e Educação Empreendedora.